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this happens because
Galciane Neves
2016

When someone asked me: "Dear, what are you doing?", I would at times break my vow of silence and respond: "I make movies, can't you see?". In fact, I tried to extract the images I had seen, those which I had kept in memory and in scraps of paper, and thus I would create outside of myself, among real walls and visible companions. I would spread everything out in the place where I was, just as those who spouted words about the images. Fruitlessly, I could no longer ignore this double imposture of us all.
It was then that I also started writing. I would arm my pen and the imposture was the same. Nothing disturbed me and everyone else more than seeing my scrawls filling the spaces between the images - all white, all prepared. And the quotes, all made mine, in a sort of symbiotic relationship with that resistance of matter. Do you see? It is now the execution of a plan. All harvested, billed, culled in the house across the street, in scattered images, in other people's fleeing conversations. Now they appear: captive, embedded, prepared for this trap that I usually call editing. Isn't that how filmmakers put it? And furthermore, I also act aiming overlapping and by association. Something concerns me: will this assembly as a whole become an element of communication?
Remember that day we went down the street? I asked for a notebook, a little bit of paint, a large piece of wood. And so we continued speaking of our nests. I carved on the notebook cover: inside and outside the painting while you searched for the ink tears around the house. And the first page of this concertina-shaped voyage would bring about the speech, the writing, scenes and documents, which I kept as layers that both overlap and activate my exercises of drawing, of painting and of building objects without overloading them. You see, I do not mean to say that we will be able to remedy our inevitable gaps - between someone who produces and someone who watches this production (I am ashamed of this division, but let us continue so as to avoid external confusion) - but I really want to articulate these instances together, so different from each other, and paste them elsewhere. In the most critical moments, you had proposed that I cut off the thread of this absurd narrative and also avoid didacticism to prepare together a space of invisible arrows.
I can better explain. I know, I know. This is an image and content research, to be transported to a sort of diagram, which will transform this accumulation into a seamless logic among all elements. Thus, we guarantee the restlessness of a narrative in pieces, but which is proposed as a whole, as a story that does not end, and which is also insufficient in itself. For all things that are there, all things having expressed and exchanged their meaning, can return to the inner silence of self-consciousness. And so they twist and turn in their own desires. Each may follow their preferred arrow, and may disperse themselves in the yellow on the floor and even in spaces between phrases.

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The title of Bruno Kurru’s fourth individual show refers to a double movement, such as an arrow that points to opposite directions: a sense of referentiality, of what comes first but remains blind; and a sense of continuity and consequence that is pulverized neither in an assertive or definitive way.

Curated by Galciani Neves, the show presents a poetic artistic journey that expands the logic, the aesthetics and the understanding of painting as a specific medium. Kurru gathers and appropriates social, political and cultural issues, breaking them up into new narratives. The collage, the assembly and the thought by association are some of the main sources of this exhibition. The constructive logic of these works can be seen in the attempt to approach the most commons and urgent problems without proposing them a solution, but articulating them in other contexts: in art we may see and discuss them from another perspective.

Therefore, accumulation of images, everyday objects, quotes, reports, casual situations, colour blur, scratching and imagens of the urban environment are overlapping, intending to create rhythmic thoughts, unsteady perceptions and tempting an uncertain walk somewhat fragmented by “paintings-installations-objects”. They are together in a coexistence without consensus: Glauber Rocha, Tarkoviski, a crosswalk, quotes, baffling images from internet, affective records, landscapes representations. In this sense, the space is also an element for these works: while the works physically articulates the gallery architecture, the space is also a surface adhesion of it. The works are drawing by the space while drawing the space.

In terms of the visuality built by the artist, it’s concerned a kind of game between the “inside and outside the paint”, as he says. In other words, between what is already recognized as a compositional paint scheme and what expands to the space, to the objects, to pictorial schemes available on the walls, in the floor, in videos and texts. The artist believes that this way “does not overcharge the object”, but gives it a complex form that overflows to many others visual schemes.

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isso se dá porque
Galciane Neves
2016

Quando alguém perguntava: “Meu bem, o que você está fazendo?”, acontecia-me por vezes romper o voto de silêncio e responder-lhe: “Faço cinema, não vê?”. Com efeito, eu tentava arrancar as imagens que vi, as que havia guardado na cabeça e nos retalhos de papel, e, assim, as realizava para fora de mim, entre verdadeiras paredes e visíveis companheiros. Jogava tudo para o lugar em que eu estivesse, tanto quanto aqueles que jorravam palavras sobre as telas. Inutilmente, não podia mais ignorar essa dupla impostura de todos nós.
Daí que comecei a escrever também. Eu armava minha caneta e a impostura era mesma. Nada perturbava tanto a todos e a mim mesmo do que ver minhas garatujas adentrando os espaços entre as telas – tudo branco, tudo preparado. E as citações, todas tornadas minhas, numa espécie de relação simbiótica com aquela resistência da matéria. Você vê? É agora a realização de um plano. Tudo colhido, faturado, catado na casa da frente, em imagens dispersas, nas conversas alheias que escapam. Aparecem agora: cativos, incorporados, preparados para essa armadilha, que costumo nomear de edição. Não é assim que falam os cineastas? E mais que isso, eu ajo também pensando em sobreposição e por associação. Algo me preocupa: esta montagem como construção se tornará um elemento de comunicação?
Lembra daquele dia em que descemos a rua? Eu pedi que me dessem um caderno, um tanto de tinta, um pedaço grande de madeira. Assim, seguimos, falando dos nossos ninhos. Eu talhei na capa do caderno: dentro e fora da pintura, enquanto você procurava os rasgos de tinta pela casa. E a primeira página desse périplo em formato de sanfona traria a fala, a escrita, cenas e documentos, que guardei, como camadas que, ao mesmo tempo, se sobrepõem e ativam meus exercícios de desenho, pintura e de construção de objetos sem sobrecarregá-los. Veja bem, não quero dizer que conseguiremos sanar nossas inevitáveis lacunas – entre alguém que produz e alguém que observa essa produção (eu me envergonho dessa divisão, mas sigamos assim para evitar atropelos que vem de fora) – mas quero muito que articulemos juntos essas instâncias, tão díspares entre si, e as colemos em outro lugar. Nos instantes mais críticos, você havia me proposto cortar o fio dessa narrativa absurda e ainda evitar o didatismo, para prepararmos juntos um espaço de setas invisíveis.
Eu posso me explicar melhor. Já sei, já sei. Trata-se de uma pesquisa de imagens e de conteúdos, transportá-los para uma espécie de diagrama, que transformará esse acúmulo em uma lógica sem cisão entre todos os elementos. Assim, nós garantimos a inquietação de uma narrativa aos pedaços, mas que se propõe como um todo, como um conto que não termina, que é também insuficiente em si mesmo. Pois todas as coisas que estão ali, todas as coisas tendo manifestado e intercambiado seu sentido, podem voltar à interioridade silêncio da consciência de si. E assim, viram-se e reviram-se na vontade de cada um. Cada um pode seguir a seta que quiser, pode dispersar-se no amarelo que está no chão e mesmo nos espaços que sobram entre as frases.

Ainda assim, me pego pensando no que cada um verá. Mostro uma face de tudo que elaborei, o que pode parecer insuficiente ainda. Penso no livro azul, naquela casa que voa, no professor sentado sobre a pedra, nos pés brancos e sujos. Isso se dá porque nenhuma explicação pode satisfazer. Assim como se nos perguntássemos o motivo pelo qual o contista muda de parágrafo para concluir negligentemente. Daí, me alivio, porque sei que tudo precisa de uma ocasião, tal como a que inventamos aqui: a gente inunda a sala, chama quem puder, e convida todos os que estiverem aqui para olhar para a janela que está na parede. Não chamo isso de conclusão. Mas que uma aventura em curso, em que somos muito pequenos se nos compararmos ao que queremos discutir: os arcabouços dominantes da política neoliberal que nada tem a propor, o nosso salto para uma mudança de paradigma, o fim dos poderes dominantes e um mínimo instante de potência de invenção de nós, sujeitos, em busca de felicidade, de acesso livre ao comum e de sustentabilidade desse comum.
O título da quarta individual do artista Bruno Kurru remete a um duplo movimento, tal como uma seta que aponta para direções opostas: um sentido de referencialidade, daquilo que vem antes, mas que permanece cego; e um sentido de continuação e consequência que se pulveriza de maneira nem assertiva, nem definitiva.
A lógica construtiva dos trabalhos que compõem esta mostra são uma tentativa de abordar questões comuns e tão urgentes contemporaneamente, sem lhes propor uma solução, mas antes numa articulação constituída pelo artista, em outros contextos: no campo da arte, para quem sabe, possamos enxergá-las e discuti-las a partir de uma outra perspectiva. Estão juntos numa convivência nada consensual: Glauber Rocha, Tarkoviski, desenhos, citações de poemas de Décio Pignatari, imagens desconcertantes provenientes da internet, registros afetivos de Bruno Kurru, representações de paisagens. Essas colagens apontam para a vontade de um espaço dissensual, de vozes distintas, onde se processam apropriações e traduções. E são a partir desses pensamentos que este exercício de escritura se deu.

Estão aqui presentes, sem apontamentos de citação, mas como pares comclamados a uma conversa, como títulos libertos das intrusivas convenções da escrita: Jean-Paul Sartre (As palavras, autobiografia publicada em 1964); Michel Foucault (A ordem do discurso, 1970); Michael Hardt e Antonio Negri (Declaração - isto não é um manifesto, 2014).